O réu não demonstrou nenhuma emoção durante a leitura do veredicto
Vivo lendo essa frase. Quando mais eu leio, menos entendo- emocionalmente falando (mas sem demonstrar).
Podem observar que ela sempre se refere à desgraça alheia, e é dita/escrita por alguém que avalia a situação de outro pela janela do quarto, normalmente um lugar quentinho e confortável, com um ângulo de visão privilegiado. O caso em questão é de um homem de 74 anos que acaba de ser condenado à prisão perpétua. O comentário parece um despontamento: "platéia, perdoem-me, não houve lágrimas, nem sangue. Quem sabe na próxima semana, com novos leões e novos cristãos". Ou pior, um julgamento. Como se o fato de a pessoa não demonstrar emoções significasse que elas não existem.
Tempos atrás, um amigo estava me contando sobre o trabalho humanitário que ele e seus colegas, todos médicos, estavam fazendo em uma comunidade pobre. Eles falavam sobre uma mulher que tinha perdido dois filhos - eles tinham morrido - e queria doar o outro. Não sei com exatidão qual era a história, e posso ter, inclusive, trocado os números; entretanto, sei que é uma história de pobreza extrema e desgraça extrema. E o comentário deles, espantando, é que a mulher contava essa história sem nenhuma emoção. Chocados, como se o fato de ela não se descabelar hollywoodianamente na frente deles a desumanizasse. Imaginei a dor dessa mulher, cercada por saudáveis e bem alimentados ( e bem intencionados, eu sei) residentes de jaleco branco, todos os dentes, e um farto e bem documentado catálogo de demonstração de emoções, de A a Z.
Profunda solidariedade e compaixão pelas dores tão extremas que anestesiam, cruzam as fronteiras da loucura, estupefazem. E um aviso para aqueles que olham tudo das janelas do quarto: a vida não é filme, você não entendeu.

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