11 October 2008

Entrelinhas


Se compreensão de texto já é uma coisa complicada, imagine compreensão de subtexto.

- Como assim, você não compreendeu as entrelinhas??? Eram tão óbvias!
- Quê?
- Lógica! Lógica pura, meu amigo! Cada linha tinha uma linha subentendida, que só podia ser aquela...

O Óbvio é primo irmão da Discórdia, e os dois são filhos da Lógica. Aristotélica. Clara como água. Entendeu?
- Não....
- Pode, isso???

Pode. Se um texto escrito em linguagem acadêmica (onde teoricamente as palavras são "objetivas") é sempre acompanhado de um glossário, e às vezes o glossário do glossário, para garantir que o tal "significado único" das palavras  é o mesmo pra todo mundo, imagine um texto não acadêmico, ou pior, uma conversa?

O problema é que o que se diz é apenas a ponta do iceberg, o que aparece depois de termos feito caminhos tortuosíssimos de significações altamente subjetivas dentro o nosso cérebro, baseadas na nossa própria vivência, história, neuroses, idiossincrasias. Olha o Lev, por exemplo:



Na verdade, ele foi bem espertinho e pegou uma situação mais ou menos senso comum. Mas imagine situações típicas do dia a dia em que o implícito, que parecia tão evidente, simplesmente não é aquilo. Por exemplo, alguém olha pra você na rua. E olha de novo. Você pensa:

"Sou ou não sou bonito?"

A pessoa pensa:

"Por que será que o meu tio não me ligou?"

O seu colega olha feio pra você. Você pensa:

"Sabia que ele não ia com a minha cara".

Ele pensa:

"Por que ele nunca me cumprimenta?"

Etc. Deixe sua imaginação voar, mas tenha em mente o seguinte. O óbvio não existe. O óbvio não existe. Isso é uma gravação.

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