29 October 2009
19 March 2009
O réu não demonstrou nenhuma emoção durante a leitura do veredicto
31 December 2008
As dez regras pra escrever correto
1. Colocar vírgula entre o sujeito e o predicado, não é correto.
2. Locuções adverbiais sem sombra de dúvida devem ser usadas entre vírgulas.
3. Sujeito e verbo deve sempre concordarem.
4. Lhe aconselharia nunca começar uma frase com pronome oblíquo.
5. Consulte um dicionário sempre que tiver dúvidas de hortografia.
6. Não deixe de evitar frases com duplas negativas.
7. Não utilize afirmações repetitivas, redundantes, tautológicas e pleonásticas.
8. Não reutilize afirmações repetitivas, redundantes, tautológicas e pleonásticas.
9. Não escreva, ou evite ao máximo, longas sentenças nas quais – por causa de um grande contingente de idéias, separado por vírgulas, que você tenta expressar, mas se acumulam na frase – o leitor, pobre vítima de tal barbárie sintática, que tenta apenas compreender, tenha que voltar atrás na frase que você escreveu (com a melhor das intenções, diga-se de passagem), procurando encontrar o sentido daquilo que se estava tentando, mas nem sempre conseguindo, dizer.
10. Lembre-se de terminar aquilo que voc
...................................................................................
(Adaptei de um texto que li há muito tempo, mas não sei quem é o autor!)
16 November 2008
Arepas, engenho e arte

11 October 2008
Entrelinhas

Se compreensão de texto já é uma coisa complicada, imagine compreensão de subtexto.
- Como assim, você não compreendeu as entrelinhas??? Eram tão óbvias!
- Quê?
- Lógica! Lógica pura, meu amigo! Cada linha tinha uma linha subentendida, que só podia ser aquela...
O Óbvio é primo irmão da Discórdia, e os dois são filhos da Lógica. Aristotélica. Clara como água. Entendeu?
- Não....
- Pode, isso???
Pode. Se um texto escrito em linguagem acadêmica (onde teoricamente as palavras são "objetivas") é sempre acompanhado de um glossário, e às vezes o glossário do glossário, para garantir que o tal "significado único" das palavras é o mesmo pra todo mundo, imagine um texto não acadêmico, ou pior, uma conversa?
O problema é que o que se diz é apenas a ponta do iceberg, o que aparece depois de termos feito caminhos tortuosíssimos de significações altamente subjetivas dentro o nosso cérebro, baseadas na nossa própria vivência, história, neuroses, idiossincrasias. Olha o Lev, por exemplo:
Na verdade, ele foi bem espertinho e pegou uma situação mais ou menos senso comum. Mas imagine situações típicas do dia a dia em que o implícito, que parecia tão evidente, simplesmente não é aquilo. Por exemplo, alguém olha pra você na rua. E olha de novo. Você pensa:
"Sou ou não sou bonito?"
A pessoa pensa:
"Por que será que o meu tio não me ligou?"
O seu colega olha feio pra você. Você pensa:
"Sabia que ele não ia com a minha cara".
Ele pensa:
"Por que ele nunca me cumprimenta?"
Etc. Deixe sua imaginação voar, mas tenha em mente o seguinte. O óbvio não existe. O óbvio não existe. Isso é uma gravação.
Labels: entrelinhas, lingüística, pragmática, subtexto
18 July 2008
Havaianas, ou a arte de esquecer tudo e começar em silêncio
Eu ia indo comprar um par de havaianas para dar de presente, eu mesma usando havaianas. Sentei para esperar o metrô, e dois meninos de seus 14-15 sentaram no banco ao meu lado. O barulho do metrô do outro lado da estação abafou a letra, mas pela música da fala deles eu sabia que eram brasileiros, num dia em que brasileiros resolveram cruzar meu caminho em várias situações diferentes. Encontrar brasileiros é um alento para o coração da gente em dias chuvosos e sombrios como o de hoje. Mas meu estado de ânimo me calou, e assim que a estação recuperou um relativo silêncio, ouvi o mais velho dizendo:- Põe logo esse tênis, louco!
O mais novo puxou as meias de algum lugar e começou a calçar. Ternura por meninos brasileiros meio perdidos no metrô, e ainda por cima calçando os tênis. Quem seriam os pais deles? O que eles estariam fazendo aqui? Por que não voltaram para Porto Alegre, ou seja lá qual for a cidade de onde eles vieram?
Meu coração entrou em profunda cumplicidade com esses meninos, arrastados sem sapatos pela fuga/procura/sonho/whatever dos seus pais. Mesmo assim, continuei calada, olhando pra frente, quando percebi o menino olhando para as havaianas no meu pé, e muito rapidamente, olhando para o meu rosto. Ele não tinha como ter certeza. Havaianas estão na moda. E ainda, o que eu diria? "Olha, você não é louco por estar sem os seus tênis. A culpa não é sua. Não faz mal andar descalço....depois lava o pé direitinho, e continua andando, que no fim dá tudo certo"?
Sem olhar pra eles, fui embora. Ainda tinha que comprar as havaianas. Que calem as palavras.
25 June 2008
Vivimos en un tiempo en el cual no es prestigioso tener esperanza. En estos tiempos, la esperanza y la alegría son confundidas con ingenuidad. Siguiendo esta lógica, cuanto más ilustrada, más pesimista debe ser una persona. No puedo ponerme de acuerdo con una perspectiva tan sombría de la existencia. Creo que el vision critica no impide el tener esperanza. Es eso lo que Violeta Parra prueba con esta canción sirviendose de antítesis y sintisis, dialecticamente hablando. La ironía es que, mismo regalando al el mundo este himno de esperanza, cantado por todo el mundo, entre ellos Joan Baez y Elis Regina, se mato pocos meses después de lanzar la canción. Gracias por mis ojos y mis oídos, y por todo lo que yo escucho y veo, el bien y el malo; gracias por la lucidez, y por la razón. Hasta este punto oímos la voz de una mujer que encontró el equilibrio. Pero, sus pies cansados hablan que la ruta se esta terminando.En este momento, la lucidez sirve para decir: Gracias vida, y adiós.
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el oído, que en todo su ancho
Traba noche y dia grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando
Gracias a la vida,que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida.
17 May 2008
Onna, a imagem do feminino

(Parênteses irresistíveis. O que vocês imaginam que uma noiva faz dois dias antes de se casar? Repouso absoluto? Banho de pétalas de rosa? Pois eu conheço uma que ficou brincando de "dicionário" com os padrinhos de casamento dela. E ela é muito boa nessa brincadeira!
Na verdade, o "Dicionário", que é um jogo que exige 3 (ou mais) malucos, um Aurélio velho, papel e lápis, é a versão original e mais pobre de um jogo chamado " Academia" . Consiste em falar baixinho para o noivo não acordar, e então, escolher uma palavra bem absurda no dicionário, como emboança, por exemplo, e enunciar esta palavra para que cada um suponha (invente) um bom e plausível significado para ela. Ganha pontos quem acertar o significado real, e também quem inventar um significado tão bom que os outros acreditem que era o que estava no dicionário. Mas deixemos de emboança e voltemos ao assunto que motivou esta crônica.)
Motivação é a palavra chave dos pictogramas, que as vezes derivam nos ideogramas, mais complexos. Ao contrário das nossas palavras, que são arbitrárias e não-motivadas (que é exatamente o que nos permite brincar de dicionário), aquela imagenzinha composta de traços, como a imagem acima, é diretamente motivada - embora tenha ficado muito estilizada através dos tempos - pela idéia que quer representar.
Eu estava estudando alguns pictogramas e ideogramas, e este me encantou especialmente. Significa feminino, mulher. Achei a imagem linda, os traços harmoniosos...mas o desencanto veio logo: passeando pelos links ideográficos que eu fui encontrando, aprendi que a figura representa, originalmente, uma mulher de joelhos.
Não sei por quê, me deu vontade de instituir uma brincadeira de dicionário com ideogramas chineses.
09 May 2008
15 February 2008
"Believe or not, I believe that"
Ele é incrivelmente carismático, especialmente quando sorri. E falou em ingles/francês para uma platéia cheia por duas horas. Em alguns momentos, ele parecia aquele Gil do filminho do youtube, titubeante, viajante, os óculos frouxos caindo o tempo todo, a maior parte da reflexão perdida na busca inútil de palavras que nunca iriam dar conta do tamanho da idéia que nunca se completava. E então ele se empolgava, deslanchava, e era o visionário, com olhos brilhando cheios de certeza. E na certeza, ele fluía. A certeza de um futuro em que a cultura ocupa o espaço que lhe cabe, tão grande quanto o da economia. A certeza de que os seus "Pontos de Cultura" vão dar voz e espaço para grupos culturais do Brasil todo. Ambíguo, como todo ser humano.
No final, ele pegou o violão e cantou, para delírio da audiência. Sua primeira canção?
"Andar com fé eu vou
Que a fé não costuma falhar...
Eu fiquei pensando que queria ter feito uma pergunta:
"Gil, você é um visionário. Aos visionários falta chão? Como a gente faz pra acreditar em você, se você parece sempre falar de um lugar meio etéreo? A gente não quer só diversão e arte, a gente também quer comida!"
Em outras palavras: Não sei mais acreditar. Me ensina?
Virei o personagem do Denys Arcan no "L'Âge de Ténèbres": abri mão do passado e do futuro ao mesmo tempo, e vivo cada dia com os pés no chão (chão= aquela coisa que costuma existir embaixo dessa montanha de neve. Até pra acreditar no chão anda sendo preciso ter fé!). E bem neste momento vou lá, ouvir esse sujeito que acredita na inclusão digital. Na democracia do cyber espaço. No compartilhamento dos bens que segundo ele, não são públicos nem privados: são comuns. O compartilhamento fraterno dos bens comuns. Acreditem ou não, ele acredita nestas coisas.
E eu acredito nele.
07 December 2007
Laços
Assistiu?
Um dos meus recursos narrativos favoritos é este de te apresentar alguma coisa no fim que transforma completamente a história. É meio mágico, muda tudo, dá um arrepio na espinha, e na re-leitura, tudo é poesia: simplicidade com profundidade, despretensão com qualidade, e uma super cumplicidade com os nossos maiores medos e constatações, mas acima de tudo, com o nosso desejo de ficar bem.
13 November 2007
Armadilhas da Língua

Recebi um email com o título "As armadilhas da língua".
Como a pior armadilha da língua é se deixar intimidar por ela (ops....te lembrou alguma coisa? Não? Entao depois dá uma olhadinha), resolvi colocar o email aqui e comentar.
Abraços redundantes!
O Email:
"As armadilhas da língua
É o termo usado para definir um dos vícios de linguagem. Consiste na repetição de uma idéia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido.
O exemplo clássico é o famoso 'subir para cima' ou o 'descer para baixo'. Mas há outros, como você pode ver na lista a seguir:
- elo
- acabamento
- certeza
- quantia
- nos dias 8, 9 e 10,
- juntamente
-
- em duas metades
- sintomas
- há anos
- vereador
-
- detalhes
- a razão é
- anexo
- de sua
- superávit
-
- conviver
- fato
- encarar
- multidão
- amanhecer
- criação
- retornar
- empréstimo
- surpresa
- escolha
- planejar
- abertura
-
- a
-
- comparecer
- gritar
- propriedade
-
- a seu critério
- exceder
Note que todas essas repetições são dispensáveis.
Por exemplo, 'surpresa inesperada'. Existe alguma surpresa esperada? É óbvio que não.
Devemos evitar o uso das repetições desnecessárias. Fique atento às expressões que utiliza no seu dia-a-dia.
Verifique se não está caindo nesta armadilha.
Gostou?
Repasse para os amigos amantes da lingua."
Eu não sou amante da língua. Somos apenas boas amigas. Mas adoro receber emails como este para poder refletir sobre as verdadeiras armadilhas da língua, que são as regras fechadas demais....
Comecemos com o conceito de tautologia. Ele aplica-se mais ao conceito de repetição de idéias na retórica. De maneira geral, as repetições do tipo listado aqui são chamadas de pleonasmos ou redundâncias. Pleonasmo é, por definição, um vício, um defeito; já a redundância nem sempre é condenável, já que pode criar efeitos expressivos interessantes, normalmente de ênfase.
Imagine uma mãe nervosa, antes do temporal, dizendo, aflita:
- Entra pra dentro, menino!!!!!!
"Entra pra dentro" mostra a aflição dela, reforça a idéia de que não é para ele ficar lá fora, debaixo do temporal iminente....Só "Entra"não daria conta de toda a aflição!
Concordo com o problema localizado em "Há muito tempo atrás". Não há ênfase, neste caso, e sim puro desconhecimento do papel do "há"na expressão, que faz o mesmo papel que atrás.
Exceder em muito pode! Afinal, a gente pode exceder só um pouquinho, ou exceder demais. Há excessos e excessos! Se eu estiver a 120 em um lugar onde a velocidade permitida é 60, estou excedendo em muito. Mas se o permitido fosse 110, eu estaria excedendo só um pouquinho....
Quantias podem ser inexatas! Pior ainda, podem ser irrisórias....
Certezas absolutas são mais certas que as certezas sozinhas. Quando eu preciso muito de uma garantia que me tranqüilize, a certeza absoluta me tranqüiliza mais!
Detalhes minuciosos são mais detalhados que os não tão minuciosos assim.
Quem tem irmão sabe que duas metades podem ser desiguais, especialmente se o que ele estiver dividindo com você for um chocolate! A vida não liga muito pra matemática, às vezes, então é bom deixar bem claro que é pra dividir em duas metades IGUAIZINHAS!
Existem surpresas esperadas, e últimas versões nem sempre são tão definitivas assim. Alternativa é a opção a alguma coisa; seu alter (=outro), logo, outra alternativa é mesmo uma repetição....mas somos nós que construímos a língua, e às vezes queremos outra alternativa além daquela! Quem vai nos proibir de subverter, criar, enriquecer nossa língua com novas formas e significados? Outras alternativas JÁ!
Algumas coisas da lista, devo me render, não servem mesmo pra nada: não enriquecem a expressão, não adicionam significados. Abertura inaugural, escolha opcional...hmmm. Não vejo muito ganho com esses. Mas talvez eu não esteja tendo imaginação para vislumbrar novas possibilidades.
A língua se constrói todos os dias nas coisas que dizemos e escrevemos. E essa capacidade de nos apropriar do nosso instrumento máximo de comunicação e fazermos dele o que bem entendermos ninguém nos tira. Nem nos intimida. Quem decide somos nós, e não um gramático mal-humorado. Se o uso não for bom, as pessoas simplesmente param de usar. A língua não é uma instituição: ela se constitui, democraticamente, de acordo com os nossos desejos e necessidades expressivas.
Espero que você retorne de novo! :-)
26 September 2007
Sonhos em prestações a perder de vista

Via muito jornal na TV nos meus tempos de Curitiba, e uma reportagem do jornal do meio-dia da Globo me chamou a atenção pelas entrelinhas, mais que as linhas.
A reportagem dizia, num tom um pouco de crítica ressentida, que uma pesquisa na França concluíra que os brasileiros compram muito a crédito porque acham conveniente.
-Não é bem uma questão de conveniência, não? É necessidade, mesmo- reclamava a jornalista.
Genial, pensei, considerando de onde vinha. A teoria parecia justa e enxuta, até começarem os exemplos. O exemplo principal do economista chamado para dizer mais das vantagens que das desvantagens do crédito era uma TV flat screen de 29 polegadas.
A gente não quer só comida, a gente quer dinheiro, diversão e arte, os Titãs diziam pela boca da Marisa Monte. Tinham razão. Não estou dizendo que uma pessoa pobre não pode desejar e ter uma TV flat screen de 29 polegadas. O que me assusta é o incentivo constante, assumindo até uns ares de preocupação social, ao consumo como realização pessoal e felicidade.
Intervalo. Vem pra Caixa, você também, vem pra Caixa e tudo bem! As imagens vão passando: um homem tira uma jóia da caixa, que simboliza o dinheiro emprestado da Caixa Econômica, e coloca no pesçoco de uma mulher. Ambos estão felizes. Na imagem seguinte, a caixa vira um lap-top. "Com o crédito da caixa você fica bem", "Seu sonho realizar"....
A palavra sonho é repetida inúmeras vezes no segmento seguinte do jornal. Pessoas simples são entrevistadas, e compraram "não qualquer produto, mas o melhor, de boa qualidade".
- Como foi realizar seu sonho? - a jornalista pergunta à mulher que está comprando uma geladeira e outros eletrodomésticos.
- É bom, a gente paga tão pouquinho por mês que nem percebe, pra uma coisa que a gente queria tanto!"
Generosidade ou perversidade? Dá pra ser os dois? Afinal, eu também me vejo tendo sonhos de consumo, e me identifico com a mulher sendo entrevistada. Não vejo outra forma de ela conseguir sua geladeira. Mas eu acho que é mais perversidade que qualquer outra coisa essa campanha massiva te seduzindo a pendurar sua felicidade no equilíbrio instável de prestações intermináveis com juros cruéis.
22 September 2007
É complicado....

01 September 2007
25 August 2007
Noites estranhas de agosto

Tenho 18 minutos para registrar a estranheza da noite, que é o tempo que a bateria vai durar, enquanto termino a batida de coco e o cigarro que eu ganhei da Fofa.
Ela me deu 3, mas vou fumar só o segundo enquanto escrevo, porque o primeiro fumei andando pela praia enquanto tomava a batida de coco...a praia, aqui em Florianópolis, a ex-futura terra do meu futuro, numa viagem cheia de deja-vus sem graça nenhuma, cheia de ex-futuras outras coisas que eu nunca sei se sao já ex, já futuras, ou se simplesmente são sem nunca ter realmente sido.
O mar está diante de mim, e agora que apaguei o cigarro, posso respirar a brisa que vem das ondas que vão quebrando sem ligar para a minha noite ou para minha bateria terminando. Mas não era isso que eu ia dizer. Entrei no bar (ainda vejo o bar daqui do terraço onde escrevo essas apressadas impressões cheias de ss) sem jeito (eu, não o bar) e fiquei ouvindo a mpb ao vivo enquanto esperava a batida, que o rapazinho resolveu pra mim:
- Pra viagem?
Claro, afinal eu não tinha sentado. Então eu aceitei a conclusão dele:
- Isso.
Eu não queria fumar, e queria. Pensei: "Pedir, nem pensar. Vou tentar comprar um maço, fumar um e jogar o resto fora".
Então a moça bonita parada do meu lado inventou um preço quando eu perguntei o preço da batida:
- 8,50 cada (ele tinha colocado minha batida em dois copos de plástico, um cheio e outro pelo meio).
As duas rimos. Não tinha graça, mas nós achamos. Em tantos momentos eu fico procurando uma coisa espirituosa pra dizer, mas quando o momento é espirituoso, qualquer coisa que você diga fica engraçada. Ela estava fumando. Pedi um cigarro.
- Olha, eu vou te dar 3.
Trocamos referências virtuais e uma conversa divertida e improvável.
- E quando você vier pra Florianópolis, já tem onde ficar.
E eu, que estava sem jeito com tudo, com a vida, mesmo em frente ao mar, descobri que pode se fazer um amigo quase instantaneamente, por mais desajeitado que seja o momento. E o momento desajeitado recupera o significado, e fica um ex. E se descortina, junto com a onda, o cigarro acabado, a batida bebida, uma vontade e uma esperança de um futuro com mais jeito.
Abração, Fofa.
16 August 2007
Bigorrilho

(Da série "Histórias de Curitiba")
Ele é cearense, e mora em Curitiba desde os 10 anos de idade. Pergunto para ele por que o nome do bairro é tão estranho.
-Bigorrilho?
Contador de história é assim: você dá corda, eles se animam. E ele foi me contando....
-Bigorrilha era a prostituta que tinha uma casa naquele local.
- Bigorrilha??
Mas aí eu já estava exigindo demais. Ele ri, e continua me contando que com o tempo, o nome da região pegou, e depois do bairro, mas as empreendedoras imobiliárias não gostaram. Tentaram mudar para Champagnat,em grandes cartazes mostrando lindos edifícios, e a população nem deu bola: Bigorrilho e pronto. E Bigorrilho ficou. E como meu amigo pouco sabia da Bigorrilha, compensou me contando com detalhes a história de uma outra senhora, mais de 80 anos, que mora naquela casa de esquina ali, ó, no meio do Bigorrilho. Conta com admiração que a casa ainda era casa, no meio de tantos prédios, porque a senhorinha recusou a última oferta da imobiliária: 3 apartamentos no prédio. Um para ela e um para cada um dos dois filhos.
- E eu lá sei andar de elevador?
- A senhora aprende, mãe! - dizia o filho, de olhão na sua parte, mas ela não arredou pé.:
- Não e não. Minha mãe fugiu da Alemanha na guerra, morou aqui quase a vida inteira, eu nasci aqui e aqui morro também. Nesta casa!
Bigorrilho, com esse nome tão engraçado, para mim ficou como sendo um símbolo da resistência!
15 August 2007
Curitiba, cidade sem história.

Andar por uma cidade com a qual a gente não tem história tem um sabor de caderno novo (ou de computador novo, dependendo da década em que você nasceu).
Ah...você tinha achado que eu negava a história de Curitiba? Foi que eu me inspirei num texto que li no Um Porto a Mais, sobre a imprensa que distorce a realidade com chamadas que te chamam para olhar pro lugar errado...enquanto isso, a distorção de verdade acontece do outro lado, pra onde não tem ninguém olhando.
Mas eu estava falando da cidade: a cidade ainda não tem tua história, você nem sabe para onde olhar. Vai andando pela rua, sem saber onde ela chega, se chega...que prédio é aquele, será que essa temperatura é normal em agosto, onde foram parar os camelôs?
E então você anda, e conversa, e senta em um bar alemão compartilhando histórias. Caminha pelas ruas, se perde, acha graça, se encontra, se encanta. Entra em uma igreja, conversa com Deus, namora os livros do sebo, fala sério, fala bobagens. Descobre pessoas com camisas floridas que acendem uma vela perfumada e te servem una cerveza com um fundo e uma figura musical cubanos. Entra debaixo das cobertas, e dorme, e sonha, e o carinho simples e possível do seu sonho é igualzinho ao da realidade simples e possível que, sem que você perceba, colore sua vida com doces momentos de história.
Então, apropriado da sua história da cidade, você pode envelhecer. Você olha para a cidade da história, e não há chamada que te faça distorcer, ou perder a dimensão, afinal, do que realmente importa
30 June 2007
Senóides

Eu sempre fui um desastre em matemática. Até namorar um matemático meio poético (tudo assim, meio proparoxítono, bem como a relação em si) , no final do século passado, que me provou por A+B que meu raciocínio matemático não era tão ruim assim. Mas mesmo entendendo pouco de matemática, a senóide sempre me fascinou.
Achava lindo esse gráfico existencialista que passava pelo zero e ia para o um, passava de novo pelo zero e ia para o menos um. Parecia tanto com os meus estados de espírito! Altos e baixos....Já a tangente me apavorava pelo seu aspecto verdadeiramente bipolar:
Excesso de sensibilidade constrói estranhos gráficos nas emoções da gente.
26 June 2007
Noobs

Noob, em jogos de rpg online, é uma ofensa grave. Forma reduzida de "newbie", termo inglês derivado de new bio - nova vida- nos jogos significa a pessoa que está começando e não sabe as regras, faz perguntas inocentes, não conhece os jargões e os meandros do jogo. No jogo ou na vida, cada vez que começamos alguma coisa nova, nos sentimos desajeitados, às vezes um pouco deslumbrados demais, e em última instância, meio ridículos. E é por conta desse desconforto que ninguém gosta de revelar que é inexperiente.
Lembra? Quando a gente estava na 4a série, éramos os mais experientes da faixa 1a-4a. Éramos os "mais velhos", e era o máximo. Então entrávamos na 5a e de uma hora pra outra éramos os noobs de novo: os bacanas eram os da 8ª! Na universidade, não sei você, mas eu dei graças a Deus quando o primeiro ano acabou e eu não era mais caloura. Já sabia meus caminhos por ali, as regras, os pequenos segredos que me permitiam não tropeçar muito pelos corredores e ir levando a vida acadêmica com uma segurança que, ao ingressar, parecia muito distante, láaaaaaaa no 2º ano.
E cá estou eu, sendo noob de novo. Como é mesmo que se vive na cidade? Como se organiza uma vida nova, um apartamento novo? Fui limpar o apartamento vazio pra onde estou me mudando e não levei uma escada. Não limpei as janelas, é claro...Esqueci coisas, outras coisas não sabia mesmo. Bom. Os veteranos que me perdoem, mas ser noob é muito divertido. Juro que não vou fazer uma cara blasé e fingir que estou acostumada com tudo, até meio entediada. Não estou!
E claro, vou lembrar de levar a escada na outra vez, inaugurando o estágio seguinte, menos perdido, da série de coisas que constituem a vivência de começar tudo de novo. Enquanto isso, vou tropeçar até aprender todos os desvãos e passos dessa estrada. E pra matar as saudades, logo, logo, inventar alguma coisa na vida pra começar de novo.
Os jogadores de RPG um dia vão se dar conta: ser noob não é um defeito. É uma arte!
10 June 2007
Paris, Je T'aime

Chame 18 diretores de cinema do mundo todo. Peça-lhes para fazer um curtíssima para ser remendado em 17 outros num grande filme coletivo chamado "Paris, Je T'aime".
O resultado é um belo caos, e entre tantas abordagens, o tom mais forte acabou sendo a ironia: "je t'aime" tem sempre implicações muito mais complexas e menos delicadas do que o imaginário sobre o tema nos tenta convencer, ainda quando se trata de Paris.
O curta de Walter Salles, por exemplo, coloca na frente dos seus olhos, de forma simples e sem drama, a condição dolorosamente injusta do imigrante, na história da moça latina que deixa seu bebê numa creche para cuidar de outro, num bairro abastado da cidade.
Do lado igualmente cruel dessa ironia, encontrei no youtube a contribuição dos Irmãos Coen, Tuileries:
Nesses, o amor não está exatamente no ar.
Mais sobre "Paris, Je T'aime".
http://cinerama.blogs.sapo.pt/105456.html
17 May 2007
A bioquímica do abraço

Hoje tive um sonho segundos antes de acordar. Sonhei que um amigo chegava de longe e me dava um abraço demorado, desses sem pressa, afetuosos, e acordei no meio do abraço.
Nós não precisamos de drogas. Coisas incríveis acontecem no nosso organismo sob efeito de um abraço, mesmo que de sonho. Toda a disposição do mundo em volta de mim ficou diferente. Mesmo com o dia feio e chuvoso, tudo o que eu conseguia sentir era o acolhimento, um dia inteiro pela frente cheio de perspectivas, a luminosidade da manhã, esse tipo engraçado de coisa que a gente sente depois de algumas cervejinhas, só que sem elas, dessa vez. Fiquei quieta prestando atenção nas sensações todas, na tentativa de apreender cada uma e conservá-las o mais possível em mim pelo resto do dia. A química é minha, ninguém me deu, ninguém me tira...
E já que o tom é meio onírico mesmo, a conformidade fica mais bonita na boca do Leminski:
quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento.
29 April 2007
Gestos

Words...I have always given to those ethereal entities some worth that they don't have concretely. They would, if followed by gestures. Texts move me, touch me, even constitute me. Or so I thought. Until the very moment when people with few words and significative gestures came closer when I really needed them. They have been touching me, moving me forward, those beautiful friends, so close to me.
Words with no gestures are nothing.
Gestures with no words remind me who I am, they constitute myself and they even can, later on, after all, inspire words. But both inspiration and words come after the strength of the silent caring.
And as I get back my strength to be able again of loving gestures, I give you all a word:
Thank you.
From the bottom of my heart, thank you.
Gisela
Palavras... Eu sempre enchi essas entidades etéreas de um valor que elas não têm. Ou teriam, se fossem acompanhadas de gestos. Os textos me comovem. Me movem. Me constituem....ou assim eu pensava. Até que criaturas de poucas palavras e muitos gestos me rodearam quando eu mais precisava delas . E têm me movido, me comovido enormemente, esses amigos lindos, tão pertinho de mim.
Palavras sem gestos são nada.
Gestos sem palavras me lembram quem eu sou, me constituem, e podem até, mais tarde, incêndio apagado, temores confortados, tijolos assentados, inspirar palavras. Mas tanto as palavras quanto a inspiração só podem decorrer da força concreta do afeto silencioso.
E enquanto eu me fortaleço para ser de novo capaz de gestos de amor, vou dar a vocês a minha mais comovida palavra:
Obrigada.
De todo o coração, obrigada.
Gisa
10 April 2007
Paixão (texto de Adriana Falcão)
"Graças a Deus eu não penso mais no Jorge. Inclusive, eu já acordo pensando: não vou pensar nele hoje. Ahn...não vou pensar nele hoje? Não, não, eu NÃO vou pensar nele hoje! Mas eu não vou mesmo! Cala a boca, Jorge, cala a boca, eu não penso mais em você! Cala a boca! Eu não disse que eu não penso mais no Jorge? Nem penso mais no Jorge. Nem no que ele me fez...nem na falta que ele me faz...Ai, vou telefonar pra ele! Telefonar pra ele então...nem pensar. Se por acaso vier à minha cabeça a palavra assim: “telefone”, eu imediatamente começo a pensar em outra coisa. Telefone, Graham Bell (o cara que inventou o telefone, não é?) Graham Bell- Jingle Bell, Jingle Bell- Natal, natal a blusa que o Jorge me deu no ano passado...sai, sai, sai!Esse ano eu não vou pensar no Jorge um único dia. Minha cabeça vai estar ocupada com coisas muito mais importantes: o que é que eu vou fazer da minha vida sem o Jorge, por exemplo. O que eu vou fazer da minha vida sem o Jorge, por exemplo.... O que eu quiser, ora! Como por exemplo, me matar! Por que eu não vivo sem o Jorge? Olha lá! Olha lá, todo mundo vivendo sem o Jorge! Todo mundo vive sem o Jorge, menos eu. Ah, lá, o porteiro vive sem o Jorge. Ah, lá, a mulher da farmácia vive sem o Jorge. A mulher da banca de revista também...
Até Cleópatra vivia sem o Jorge. Ah! Exatamente agora, por exemplo. Tem gente nascendo, tem gente sofrendo, namorando, comendo, malhando. Tem gente não fazendo nada.Tem gente lá, tentando descobrir a cura do câncer. Tem gente comendo, nascendo, namorando, malhando. Tem gente que jamais ouviu falar no Jorge...e vive! Normalmente!...eu sou a única pessoa viva ou morta que não consegue viver sem o Jorge! Uma anomalia, uma aberração científica!Eu sou portadora de uma raríssima dependência patológica denominada Jorge!Um caso tão raro que só existe um em toda a humanidade! Eu, a idiota, aqui! Se está estatisticamente comprovado que se pode viver sem o Jorge, é exatamente isso que eu vou fazer. Viver! Sem ele.Vou sair por aí...vou paquerar, dançar, me divertir um pouco.Vou ser uma pessoa feliz, afinal...quem sabe eu não encontro o Jorge por ai?"
(texto de Adriana Falcão)
01 March 2007
Something old, something new , something borrowed, something blue!

uma coisa nova
uma coisa emprestada
uma coisa azul".
Em português não rima, mas essa frase é uma tradição inglesa (conclusão a que cheguei após detalhadas pesquisas noite afora em bibliotecas empoeiradas....) para coisas que a noiva - no caso, a Michele, a menina linda da foto que se casa por esses dias - deve usar para ter um casamento feliz. Conforme aprendi nas minhas pesquisas, os símbolos de cada coisa tem significados muito interessantes.
Uma coisa velha
Significa um vínculo com os ensinamentos dos mais velhos e sábios da família (ou seja, a gente.) Note que eu, modestamente, usei a palavra vínculo, e não total reverência, como seria o correto, por pura modéstia (e bom senso).
Uma coisa nova
Significa as perspectivas do novo jeito de viver que estão começando (test-drive não conta!) e toda a energia boa de tudo novinho, iluminado e cheio de promessas!
Uma coisa emprestada
Pra noiva continuar tendo uma família grande e bagunceira apoiando tudo o que ela faz, e às vezes metendo a colherona torta (não dá pra ter um sem o outro...) Enfim, uma farra. E um conforto muito grande de ter tanta gente que gosta dela mais ou menos por perto.
Uma coisa azul
Aí, dá pra viajar...."vesti azul, minha sorte então mudou!" Diria um cantor da metade do século passado, tempo em que a noiva não estava nem em projeto. Azul do mar, do céu, de tudo que é alto astral, imenso, puro, cheio de aventuras... (pode ser azul clarinho, viu? ;-) )
Enfim: tudo isso pra dizer que os rituais são necessários, e que eu desejo que o ritual de vocês seja lindo e que vocês sejam felizes para sempre. Com os sem os itens do versinho....o que vale são as suas idéias (mas que seria divertido, seria!)
18 February 2007
Araminhos
Estava na via Anhangüera nesse mês de janeiro, embaixo de uma chuva torrencial, quando a borracha do limpador de pára-brisa se soltou. Menos mal, do lado do passageiro, mas com a borracha solta, o ferrinho arranhava o vidro. Andei mais uns 5 quilômetros com aquele barulho de unha no quadro-negro (sempre tinha um sádico que fazia isso, normalmente menino) até chegar num restaurante de beira de estrada chamado Frango Assado.
Saí do carro, olhei a situação do limpador e vi que tinha caído um parafusinho. Pensei comigo: "Puxa, um araminho aqui ia ser perfeito". Olhei no chão, e muito naturalmente, tinha um araminho encapado desses de fechar pacote de biscoito de polvilho de beira de estrada (ah, referências de Brasil, que delícia. Até o araminho é gostoso). Passou direitinho pelos dois furinhos. Torci bem, e lá estava meu limpador funcionando perfeitamente.
-Que venham as chuvas! - desafiei, me achando o máximo.
Corta pras terras geladas. No meio da nevasca dessa semana, "déjà vu", chique só no nome: a vareta do limpador de parabrisa soltou. Do lado do passageiro. Não tem Frango Assado no caminho. (Tem, no máximo, uma pedra.) Assim que eu pude parar, coloquei uma luva na haste do limpador pra ele não ficar arranhando meu cérebro. Não tinha araminho no chão. Acho que aqui não tem araminhos. Só parafusos. Soluções definitivas pra vidas temporárias. Quer saber? Sinto falta dos araminhos.
14 February 2007
Resgatando

Mas é muito estranho não escrever. Escrevo , logo existo. Continuei existindo mesmo sem escrever, mas era só no blog que eu não escrevia. Desculpem. Eu “roubei”. Escrevia escondido. Longos emails, capítulos perdidos de um improvável livro, posts em fóruns daqui e dali, pequenos prazeres roubados entre mim e as palavras, essas coisas que vão me configurando quando eu acho que perdi todas as formas. Não escrevo pra fugir. Escrevo pra entender. E mais: escrevo pra encontrar. Pra ficar em contato com pessoas que de outra forma não fariam parte do meu dia-a-dia. Saudades dos meus amigos blogueiros e dos papos que iam rolando nos “comments”de um e de outro, tão bons, cúmplices, divertidos, que também iam tecendo uma longa história nas entrelinhas das histórias da gente...
Se os olhos não andam brilhando muito, isso não significa que minha escrita não deva acontecer sob o signo dos olhos que brilham, sua perspectiva, sua esperança. E além do mais, não posso andar pelas ruas. Lá fora 22 graus negativos congelam qualquer olhar. Eu ia começar um novo Blog, mas vou teimar nesse aqui. Ele me perdoou.
23 November 2006
Olhos que brilhavam

Enquanto ia contando, ia achando minha própria história tola, mas eles não acharam. A atriz olhou tristemente para o vazio e disse: están todos muertos! (ou coisa parecida em espanhol). E repetindo essa fala, elas colocaram na cena o último luto dessa série de lutos que eu vinha fazendo aqui, e que só podia terminar no encerramento desse blog.
Tinha tirado do ar, e ia catar o chapéu e sair de fininho, mas não é assim que se faz. Vários amigos me escreveram preocupados, e eu agradeço o carinho, e por conta disso, me despeço, fecho tudo direitinho, e só então bato o portão sem fazer alarde, levo a carteira de identidade, a saideira, muita saudade e a leve impressão de que já vou tarde...
....cuidar de questões mais concretas do cotidiano, entre elas meu site www.portuguesmontreal.com (se tiver um texto sobre questões de linguagem-de todo tipo! me avise. Estou criando uma sessão "histórias de português"por lá).
Assim que resolver todos os lutos, reabilito a virtualidade.
Um abraço grande e afetuoso pra todo mundo que passa por aqui, e até lá, continuo com email, e eles são sempre bem-vindos: gisela@portuguesmontreal.com .
Gisela
16 November 2006
Equívocos, inversões e referências roubadas
Já tem algumas semanas que a Av. du Parc, uma longa avenida que cruza a Ilha de Montreal de norte a sul, aparece na primeira página dos jornais daqui por uma razão que deixaria os moradores de (por exemplo) São Paulo no mínimo, intrigados, e possivelmente achando que por aqui faltam notícias. Tudo começou quando o prefeito de Montreal resolveu homenagear um antigo político, Robert Bourassa. Até aí, tudo bem, que políticos gostam de homenagear uns aos outros. O problema é que ele resolveu colocar o nome do homem em uma rua que se chama Avenue du Parc há pelo menos 3 gerações (não consegui descobrir a data exata), e os moradores de Montreal estão furiosos.
Fiquei lembrando de uma velha briga minha (de escrever para vereadores e coisas assim) por conta da forma criminosa como os nomes das ruas de São Paulo são tratados. Eu poderia ter morado na poética Estrada Velha de Campinas, que aliás teve uma participação enorme em toda a minha infância e adolescência, mas como algum vereador não tinha o que fazer, eu morei foi na "Av. Raimundo Pereira de Magalhães". Pior: não tenho a mais leve idéia de quem foi esse Raimundo.
A Marquês de São Vicente vai da Lapa até o Bom Retiro, mas você só descobre isso com um mapa na mão, já que alguém resolveu chamar uma parte dela de Ermano Marquetti. Os casos são muitos. Minha São Paulo ficou pródiga em ruas esquartejadas, e as razões disso são lamentáveis: os vereadores de lá são obrigados a apresentar um número x de projetos de lei por ano, e o projeto mais fácil que existe é o de mudar um nome de rua para homenagear alguém. Assim, o mapa da cidade vai se desfigurando, e a minha (já) má memória vai perdendo suas tão preciosas referências.
Aqui o absurdo também existe, mas é de outra ordem. Em resposta a manifestações públicas, abaixo-assinados concretos e eletrônicos, protestos, artigos no jornal, o que diz a assessoria do prefeito? Que o tal sujeito é muito importante para a história da cidade, e as pessoas que não querem que o nome da rua mude são "neomontrealenses". Tradução: não têm tempo de Montreal suficiente para entender a importância histórica de homenageá-lo. O contrasenso é que para homenageá-lo eles querem desfigurar um marco histórico que esses "neomontrealenses" insensíveis estão tentando conservar...
Robertos e Raimundos, nem rimas nem soluções. Quando você passar pela placa da rua, me mande um recado pra eu me lembrar onde mesmo que eu estou.




